Na Onda (por Daniel Oliveira)

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Na Onda (por Daniel Oliveira)

Mensagem  flipsoza em Sex Set 12, 2008 4:12 am

Escolhi colocar aqui este texto porque acaba por vir reiterar a minha visão sobre o estado do jornalismo em Portugal nos dias que correm.

Este vídeo foi montado por mim e pelo Pedro Sales usando apenas excertos retirados do Jornal da Noite da SIC dos dias 26, 28 e 29 de Agosto. Isso mesmo: apenas três dias. A mistura de crimes graves com crimes menores, dando sempre a ideia, através da quantidade, de uma onda incontrolável de criminalidade, é evidente. De notar a sequência: muitos crimes, reacção do poder politico, empresas que tentam aproveitar a histeria e polícia a fazer encenações para a televisão em bairros sociais.
Já há notícias sobre o ano lectivo e sobre o ano político. Esta onda mediática deve estar a chegar ao fim.

Aproveito este vídeo para um longo post. Não sobre a insegurança, mas sobre a comunicação social e sobre o seu papel nas democracias modernas. Para quem tiver paciência, claro.
A criminalidade violenta aumentou em relação ao primeiro semestre do ano passado. Mas o ano passado foi o melhor dos últimos seis anos. Ou seja, olhando para a frieza dos números, nem o aumento em relação ao ano passado, nem a comparação com os restantes anos explica esta onda mediática. Ela é explicada por o que aconteceu na Quinta da Fonte, no BES e no assalto à carrinha da Prosegur. E, já agora, pelo facto deste ano não ter havido incêndios.
Nada disto reduz a gravidade dos crimes cometidos. Apesar de, como podem ver no vídeo, terem chegado aos telejornais notícias que em momentos normais nem às páginas de crime de um jornal sensacionalista chegariam. É um dado importante para perceber a forma como comunicação social se comporta em momentos de alarme social.
O debate sobre a comunicação social, os jornalistas e as manipulações acabam invariavelmente em teorias da conspiração. E acabam mal. Imaginam-se empresários a dar ordens, políticos a decidir alinhamentos, tenebrosos grupos a mexer os cordelinhos para calar uma notícia e fazer sair outra. Não negando que há interferências externas ilegítimas, grande parte do que se passa com a comunicação social de hoje resulta de uma dinâmica própria, no quadro da ética deste século: a ética do entretenimento, em que a televisão é a rainha.
Na era da televisão, falar de jornalismo ficando pela imprensa ou pondo a imprensa no centro do debate seria um absoluto disparate. A imprensa pode dar o conteúdo, pode até lançar cada tema, mas é a televisão que marca o ritmo e o ar de cada tempo. E esta é uma das principais características do jornalismo que hoje temos: é marcado pela televisão.
O jornalismo televisivo vive, antes de mais, segundo as regras da televisão e só depois segundo as regras do jornalismo. Tem o ritmo frenético da televisão e aproxima-se o mais que pode da ficção das telenovelas. Precisa de criar narrativas próprias. E, como as telenovelas, para ter mercado cria mercado. Cria necessidade e ansiedade. E quando submerge o país na sua própria narrativa, dá as pessoas mais do mesmo até esgotar o filão. Depois, o consumo será, como é quase sempre, compulsivo: se as pessoas estão com medo, dá-se-lhes pânico (é o que se fez com a criminalidade), se as pessoas estão animadas dá-se-lhe euforia (foi o que se fez com o Euro 2004 ou Expo), se as pessoas estão desanimadas dá-se-lhe a depressão (foi o que se começou por fazer com os Jogos Olímpicos). E assim cria uma sociedade maníaco-depressiva, que salta da euforia para o desânimo absoluto.
Dois bons exemplos são recentes: o da insegurança e o das medalhas nos Jogos Olímpicos.
Cada onda mediática começa com um pequeno ou grande facto que, por alguma razão, afecta as pessoas. Foi o caso da Quinta da Fonte (que envolvia ciganos, ciganos com plasmas, a desordem e o caos e imagens próximas do que conhecemos de filmes de acção). A essa história juntou-se o assalto ao BES (com imigrantes, insegurança e outro enredo aproximado ao da ficção televisiva). Tínhamos duas histórias excelentes para que a onda ganhasse grandes proporções. O assalto à carrinha da Prosegur já só serviu para manter a onda para lá do que seria normal.
Todas as histórias que vemos no vídeo que aqui coloquei são verdadeiras. Mas se olharmos com atenção, a maior parte delas é relativamente banal numa grande cidade e noutra altura nunca teria direito a tempo no telejornal. E muito menos a abrir um telejornal (como foi o caso de um assalto a uma ourivesaria). É a repetição de muitos pequenos casos que cria a sensação de grandeza.
Se se colocasse como abertura do telejornal cada violação que tem lugar neste país entraríamos em estado de choque. No entanto, ninguém se atreverá a dizer que a violação não é um crime gravíssimo. Mas a televisão tem uma capacidade impossível de contrariar: transformar a excepção em regra, o receio em medo, a indignação em histeria. É a repetição de dezenas de casos de assaltos (e dezenas de assaltos acontecem no pais há anos, todos os dias), que cria esta realidade.
O caso dos Jogos Olímpicos é também interessante. E atípico, pelo seu desfecho. Os maus resultados e as primeiras declarações desastradas dos atletas tinham tudo para resultar: a metáfora de um país falhado, preguiçoso (quer é dormir de manhã e diz que a culpa foi dos outros). É assim que o país, em plena crise económica e de confiança, se sente. A história era por isso boa e os jornalistas pegaram. E foi só continuar o enredo. Insistir com os atletas inexperientes na relação com os media e esperar que se espalhassem ao comprido. E depois procurar reacções aos seus disparates. A do Presidente do Comité Olímpico e a de Vanessa Fernandes foram as mais conseguidas para ajudar a continuar a narrativa.
Só que no fim, neste caso, as coisas mudaram sem que disso se estivesse à espera. As medalhas vieram e até foi a melhor participação de sempre nos Jogos Olímpicos. Os actores ficaram sem personagens. E de repente o presidente do COP já não ia embora. E de repente o editor de desporto da SIC descrevia Vanessa Fernandes, que antes tivera o papel de competente e corajosa por criticar a má conduta dos seus colegas, como alguém que era imponderada e pouco solidária. Os jornalistas montaram o guião, Vanessa Fernandes aceitou o seu papel e depois eram os próprios jornalistas a atira-la borda fora e a dar-lhe uma outra personagem, bem menos simpática. Avaliação do que eles próprios fizeram? Nenhuma.
Os jornalistas não são profissionais autónomos. Cada vez mais proletarizados, não criam um discurso próprio. Apenas repetem discurso já legitimado. Têm de ser objectivos. Mas, na realidade, apenas existem métodos de trabalho rigorosos. A objectividade é uma ficção. É, na realidade, a normalização do discurso dominante. E esta assunção do discurso dominante acaba em auto-censura. Sem autonomia, o jornalista pode ser mais facilmente tendencioso para se aproximar desse discurso do que para se aproximar da sua própria posição.
Recentemente, com o crescente peso da opinião nos jornais (e até na televisão), os colunistas transformaram-se num dos principais instrumentos de legitimação do discurso que os jornalistas adoptam. A maioria dos colunistas limita-se a repetir o discurso hegemónico, transformando-o em senso comum. Eles são a opinião pública. Fora disso teremos, quanto muito, opiniões privadas.
No caso da insegurança, foram os colunistas que, transformando ideologia em senso comum, fizeram a agenda. A propósito da Quinta da Fonte, os temas escolhidos foram os apoios sociais e a falta de autoridade do Estado. Podia ter sido os bairros de realojamento. Não foi, porque quem domina os espaços de opinião tem um posicionamento ideológico. E rapidamente os jornalistas adoptaram este ponto de vista nos trabalhos que foram fazendo. No caso das medalhas foi o país que não trabalha, que é pouco exigente, que vive na balda. Podia ter sido a falta de apoio aos desportos com menos praticantes.
Porque usa o senso comum, o jornalista apenas confirma o consenso. Fora do consenso, estará no campo da sua opinião pessoal, do jornalismo com causas, tendencioso, pouco objectivo.
Geralmente, pensa-se que quem ganha com cada onda mediática é responsável por essa onda mediática. E assim nascem rebuscadas teorias da conspiração. Geralmente é bem mais simples: quem tem a ganhar com um ambiente de histeria aproveita o momento em que o debate é impossível. Foi assim nos EUA depois do 11 de Setembro, é assim em Portugal em vários momentos. Ninguém acredita que as empresas de segurança privada, a Associação Sindical de Juízes, com todos os seus aliados contra as alterações ao Código do Processo Penal, ou o CDS têm força para criar uma onda destas dimensões. Apenas surfaram nela.
O momento é propício porque nele estão anuladas as condição para um debate em que a contra-corrente tenha espaço: existe o que existe na televisão e não há números ou argumentos que destruam o que aparece na televisão. A cor e o som da realidade televisiva são muito mais fortes do que a cor e o som da realidade. Quem disser qualquer coisa de diferente, mesmo que seja a mais básica das evidências, é esmagado. E neste ambiente de histeria todos os interesses aproveitam para ganhar a sua parte.
O ambiente de histeria e a sua utilização por quem tenha a ganhar alguma coisa com ele é especialmente grave quando sabemos que os jornalistas têm hoje poucas ou nenhumas condições de investigação. Aliás, a sua falta de autonomia para definir o seu próprio discurso também resulta disto mesmo: da proletarização das formas de produção nas empresas de comunicação. São cada vez mais os jornalistas sem vínculo, cada jornalista produz várias peças por dia, enchendo chouriços sem tempo para fazer um trabalho rigoroso. É a rapidez na produção e o tom apelativo dos trabalhos, mais do que a qualidade e do que o rigor, que são valorizados.
É nestas circunstâncias, em que os jornalistas estão vulneráveis a todo o tipo de manipulações e em que a histeria e o puro entretenimento se instalam no lugar da informação rigorosa, que os poderes públicos são obrigados a reagir às ansiedades dos cidadãos.
Na última onda mediática (outros existiram e outras existirão), o Procurador e os juízes tentaram conseguir alguns ganhos para a sua imagem e alguns recuos nas alterações à lei e Cavaco tentou fazer o papel que reservamos para o Chefe de Estado (a voz do consenso nacional). Mas mais graves foram as reacções do governo e das policias. Elas são um excelente exemplo dos perigos que vivemos na era do jornalismo do entretenimento. O ritmo é de tal forma alucinante, a opinião pública é de tal forma volátil e as ondas mediáticas são de tal forma esmagadoras que as reacções dos poderes públicos só podem ser irresponsáveis.
Na melhor das hipóteses essa reacção tenta apenas agir na aparência das coisas, sem grandes consequências a longo prazo. É o caso da acção policial na Quinta do Mocho, Quinta da Fonte e Bairro da Arroja. Apesar de nada terem a ver com os crimes que estão a ser noticiados, os poderes públicos, reagindo às notícias, reservaram para os moradores daqueles bairros um papel: são os outros, são o perigo, são os suspeitos do costume. Não espanta, por isso, que no meio da histeria ninguém se indigne com o facto de bairros inteiros serem transformados em palco de uma exibição de força que tem como única função, como a própria porta-voz da PSP confessa, aparecer na televisão.
Noutros casos tomam-se decisões de fôlego. Foi o que o governo fez nas mudanças às regras da prisão preventiva. E é o que se faz imensas vezes: muda-se a lei, mudam-se politicas, de forma anárquica e incoerente, para responder à pressão mediática de cada momento.
A verdade é que nas sociedades democráticas os tribunais, os políticos ou as policias não podem ser insensíveis à pressão mediática. Mas o ritmo televisivo e as mudanças de humor que a pressão mediática cria são incompatíveis com a racionalidade a que estão obrigados. Ou se cria uma realidade paralela que apenas actua na aparência ou, mais grave, destruímos todas as bases de um sistema institucional democrático, que exige ponderação e coerência.
Concluindo este post enorme: o jornalismo do espectáculo, que acompanha o ritmo da televisão e tende a ser obsessivo, que não tem autonomia e que está vulnerável a todo o tipo de manipulações, é um dos fenómenos mais perigosos das democracias modernas. As nossas sociedades estão dependentes de jornalistas frágeis perante as fontes e perante a construção de discursos hegemónicos, sem capacidade de investigar e presos à lógica do entretenimento. Tendo um poder imenso, os jornalistas não têm, na realidade, poder nenhum. Manipulam consciências, sem terem poder sobre a agenda que impõem. São, por isso mesmo, manipuladores manipulados.

Daniel Oliveira in arrastao.org


Há quem ainda me faça pensar que tenho os olhos bem abertos e o cérebro a funcionar decentemente... afro

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